3 comments

Tenho falado da importância de se preparar para o parto normal com exercícios para o fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico, mas existem condutas médicas que aumentam a chance de haver laceração. Além de preparar o corpo para o parto, é necessário estar muito bem informada sobre a fisiologia do parto e a necessidade de respeitar o tempo do bebê e da mulher, para assim poder negar certas orientações.

Já sabemos que o peso do bebê não define a possibilidade de laceração (veja o caso do bebê de mais de 5Kg), mas um conjunto de acontecimentos. Alguns procedimentos desnecessários aumentam a chance de uma laceração de segundo grau. São eles:

  • Manter  paciente em litotomia (deitada em posição ginecológica)

A fisiologia do corpo da mulher deve ser respeitada e por isso ficar deitada não é a melhor das posições para parir (a  menos que a mulher se sinta melhor dessa forma).

É muito importante que a mulher se movimente e mude de posição durante o trabalho de parto para ajudar a descida do bebê.

Em muitas das leituras que fiz aprendi que o parto de cócoras costuma ser mais rápido e ter resultados mais satisfatórios pois amplia a saída e diminui o canal de parto, assim como outras posições verticais.

Como diz Alex Antunes em um texto recente sobre os partos horizontais “bebê não é rojão para nascer para cima.” Lembram da lei da gravidade?

  • Puxo dirigido

O Puxo dirigido (quando o médico/enfermeira orienta a paciente de que ela deve fazer força) aumenta de 2 a 3x a chance de uma laceração de segundo grau de acordo com um estudo realizado na USP (Veja aqui), em relação ao puxo espontâneo.

No trabalho de parto (TP): De maneira nenhuma a gestante deve ficar fazendo força no intervalo das contrações. Nesse intervalo é importante que ela descanse e se recupere para a contração seguinte.

No expulsivo: O bebê faz a força sozinho quando está saindo e o nosso corpo provoca esse puxo involuntariamente. Não é possível controlar essa vontade de empurrar, só precisamos deixar a natureza agir sem entrar em desespero e sem forçar demais para acelerar a saída. Quanto mais natural for a saída do bebê, melhor o corpo estará preparado e menor será a chance de laceração.

O puxo dirigido só deve acontecer se realmente for  constatado sofrimento do bebê já no expulsivo e para melhor desfecho ele precisar nascer o quanto antes. Nesses casos a episiotomia também pode ser necessária.

  • Manobra de Valsalva

Essa manobra nada mais é do que o puxo dirigido citado acima, com orientação da mulher fazer forças compridas prendendo o ar.

Não precisamos e nem devemos ficar fazendo força durante as contrações, a chamada “força de cocô” pois puxos prolongados e precoces comprometem as trocas gasosas materno-fetais (fonte). A falta de oxigenação da mãe pode comprometer a oxigenação do bebê e também causar tonturas e mal estar.

  • Uso de anestesia + puxo dirigido

Quando o hospital ou anestesista não oferecem uma analgesia de parto, no qual todos os sentidos da mulher são preservados, ou exagera na dose da droga e ela acaba perdendo parte da sensibilidade, o médico vai orientar o momento que a mulher deve fazer força e esse puxo dirigido associado à falta de sensibilidade na região pode provocar uma laceração de maior gravidade pelo excesso de força.

  • Manobra de Kristeller

Essa manobra é o famoso “empurrãozinho” que o médico ou enfermeira(o) da. Muitas vezes eles “sobem” na barriga da mulher e ajudam a empurrar o bebê para baixo para tentar acelerar o segundo período de trabalho de parto. Não existe nenhum benefício comprovado, conforme estudo. Essa manobra aumenta as chances de lacerações perineais severas.

  • Uso de ocitocina sintética

A ocitocina sintética utilizada para induzir e/ou acelerar o trabalho de parto provoca o aumento das contrações e a pressão intra-uterina, e por isso pode ocorrer o desprendimento cefálico abrupto, com laceração perineal.

  • Puxar o bebê durante a saída / Não respeitar o tempo do bebê

O bebê não precisa ser puxado em um parto normal, pois organismo o “expulsa” através das contrações. Primeiro sai a cabeça e em seguida o corpo. Geralmente em outra contração.
Ele faz a rotação sozinho e só precisamos estar a postos para segurar o bebe pois o corpo sai muito rápido e é escorregadio.

(A Alice ficou 2 minutos com a cabeça pra fora e depois nasceu o corpo. Leia o relato de parto humanizado aqui. Apesar de eu ter ficado com a mão nela, eu não a puxei em nenhum momento. A Clara (parto vaginal convencional) foi puxada após a episio (Veja relato aqui e vídeo aqui)

Uma mulher que se preparou e fez exercícios para o períneo, que ficou em posição favorável, que não fez uso de drogas para indução do parto e que não fez puxo dirigido PODE ainda ter múltiplas lacerações? Pode, mas poderia ser pior. Assim como uma mulher que não fez nada, pode não ter nenhuma. E você vai preferir contar com a sorte ou se informar, se preparar e tentar minimizar suas chances de um parto Anormal?

Leia também os posts:

 

A cada força/contração o bebê desce um pouco mais no canal vaginal, e a cada intervalo entre contrações ele volta a subir um pouco. Nesse vai e vem, a vagina da mulher vai se vascularizando, tornando-se mais flexível graças ao afluxo de sangue, e a cabeça do bebê vai se moldando ao espaço disponível, formando a chamada bossa. (Adele Doula)

Muitas pessoas me relatam que não tem condições financeiras de pagar por uma equipe de parto humanizado, então meu conselho é: pesquisem as maternidades que entendem e respeitam esse espaço da mulher e preparem o Plano de Parto com as informações sobre quais procedimentos você autoriza, quais somente em última necessidade e quais você não aceita. Com ele em mãos, visite as maternidades e tente conhecer os médicos plantonistas para saber qual a linha de trabalho de cada um e se eles aceitaram acatar as suas solicitações se o quadro permitisse.

Agora sim, munidos de informação, Boa sorte! <3

Bjossss

Imagem: Quirón

Sobre Aninha

Mãe de um trio de meninas: Bruna (6), Clara (4) e Alice (2). Dedico meu tempo à minha família e ao LookBebê. Antenada, adoro redes sociais e tecnologia e mais ainda, compartilhar conhecimento e informações sobre a maternidade. Sou (fui) Biomédica, pós-graduada em Engenharia Biomédica, mas optei por mergulhar de cabeça na maternidade.