crianças se vestindo sozinhas

O desenvolvimento infantil não se dá somente com estudos e aprendizados escolares, e sim com escolhas diárias no seu meio. A história da criança começa muito antes do seu nascimento, considerando as expectativas familiares.

Vocês devem estar pensando: o que isso tem a ver com as crianças vestirem o que quiserem? Tem tudo a ver. Quando é decidido ter um filho ou quando o temos, uma série de imagens inconscientes são elaborada antes, durante e após o nascimento. E tais imagens vão sendo incorporadas às expectativas que criamos acerca dos nossos filhos: como serão? Vão parecer comigo? Com o pai? Como eu gostaria que eles fossem? Quais nomes colocarei? Quais roupas colocarei neles? Quais cores irei decorar o quarto? E a lista de enxoval só cresce…

Deixar a criança ser quem ela é e abandonar a premissa inicial idealizada se torna um grande desafio para os adultos/pais. Eles estão inseridos numa “sociedade do espetáculo” na qual se rege a ideia de “parecer que é” valorizando a imagem e o externo.

Se notarmos, a criança já possui todo um esqueleto físico, emocional e social para ser desenvolvido, necessitando do outro para desenvolvê-lo e amadurecê-lo, auxiliando sua constituição como sujeito. Isto é, o ambiente (família) e a cultura influenciam quem somos e os comportamentos futuros, bem como a autonomia e desenvolvimento cognitivo e social.

O DESENVOLVIMENTO POR IDADE
1 ano

A criança começa a ter uma autonomia relativa, mostra-se interessada em explorar os ambientes, os objetos e as sensações. Nem precisa de brinquedos: entretem-se com coisas simples e manuseia itens improvisados (lençol, tampas, potes de pomada, caixas, etc.). Nessa fase ainda precisa muito do outro (adulto) para vestir-se, por não ter ainda uma desenvoltura motora suficiente para executar com êxito. Para os adultos é uma fase mais confortável, pois ela já consegue ficar sentada e em pé, facilitando o vestir.

Nessa idade as crianças se divertem ao pegar peças de roupas e tentar utilizá-las de alguma maneira. Se interessam por chapéus, sapatos, calças, óculos – principalmente dos adultos. É aquela fase em que os pais normalmente colocam prendedores nas gavetas e portas dos armários com o objetivo de tentar manter a ordem e não ocorrerem acidentes.

2 anos

A criança já é capaz de tirar sozinha os sapatos, assim como meias e calças, fraldas, shorts. Pode também tentar vestir sozinha uma parte da roupa, mas os resultados não são tão brilhantes – enfia os dois pés na mesma perna da calça, por exemplo. Quando os pais/cuidadores estão vestindo-a, demonstra cooperação – levanta os pés para lhe vestirem a calça. Algumas crianças gostam de se despir várias vezes seguidas, como se fosse um jogo, e se divertem a correr de um lado pro outro nuas.

À medida que a criança vai se aproximando dos 2 anos e meio/3 anos, ela insiste em vestir-se sozinha, aceita algumas orientações verbais, mas não consente que a mãe (cuidador) lhe toque. Estas exigências de independência se alternam com fases de exigência de dependência total, em que não faz nada daquilo que é capaz de fazer sozinha e recusa até a mais rudimentar colaboração. A transição dos 2 aos 3 anos é caracterizada por oscilações de comportamento, incluindo birras e negativa em aceitar orientações.

3 anos

É considerado uma espécie de maioridade no desenvolvimento infantil. O crescente autodomínio da criança tem como base a motricidade. Os seus pés estão mais firmes e mais ágeis; caminha em posição ereta e é capaz de dar voltas apertadas sem fazer complicadas manobras que há poucos meses fazia. Toda a sua organização motora está mais equilibrada e mais fluida. Gosta de subir e descer escadas correndo e adora brincadeiras que envolvam também um manuseio mais concentrado como: desenhos, pinturas, jogar bola, patinete, empilhar objetos, etc.

A criança está um pouco mais interessada em ajudar e apresenta uma maior habilidade em se vestir e despir-se. Apesar de possuir uma sofisticação motora, ainda apresenta confusão para distinguir a parte da frente de uma roupa por exemplo, e dificuldade em abotoar e desabotoar roupas. Terá dias em que a criança aceitará ajuda e em outros momentos não – tornando as saídas mais cansativas.

criança se vestindo desenvolvimento

4 anos

A criança já consegue se vestir sozinha, embora possa precisar de que lhe disponham as peças da roupa separadas. É capaz de distinguir a frente das costas, de amarrar sapatos e até mesmo abotoar. Quase todas as crianças gostam de pôr sobre si peças ou acessórios de vestuário dos adultos. À medida que a criança vai adquirindo uma maior coordenação motora, ela também se interessa em vestir-se suas roupas à sua maneira.

autonomia criança se vestindo desenvolvimento

5 anos

A criança mostra ainda mais interesse em fazer suas próprias combinações. Mesmo que pareçam “esquisitas”, é importante para o desenvolvimento deixá-la fazer essas escolhas e se sentir realizada com elas.

Nota-se que a cada fase a criança vai amadurecendo e conquistando autonomia em diversas áreas do desenvolvimento. O outro (adulto) tem um papel fundamental como catalisador desse processo de autonomia. É necessário deixar a criança conquistar autonomia, porém de maneira monitorada.

CONSEQUÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO

Brincando de se vestir à sua maneira, a criança experimenta, descobre, inventa, aprende sensações, papéis sociais, gostos e habilidades. Também estimula a curiosidade, a autoconfiança e a autonomia. É um momento de auto-expressão e auto-realização e de ser criança, sem as exigências sociais como predominantes no seu modo de ser espontâneo e criativo.

Vestir quadriculado com estampa floral vai afetar e incomodar quem?

Deixar a criança se vestir como quiser não significa usar qualquer peça a qualquer momento. É o adulto, junto a ela, participar desse jogo de experiências, como telespectador. Você pode oferecer sugestões de combinações e procurar por exemplo um acessório ou camisa que ficaria legal com o short preferido do(a) seu/sua filho(a). É importante tentar não reprimir suas escolhas, gerando um sentimento de inadequação ou rejeição. Não deixe seu filho se sentir mal e deslocado por ser a única criança vestida de super-herói.

“Aqueles para quem a roupa é a parte mais importante da pessoa, acabam, geralmente, por valer tanto quanto a sua roupa”. William Hazlitt

 

Imagens: Criança se vestindo em Shutterstock

Sobre Lilian Britto

Graduada em Psicologia pela Universidade Salvador – UNIFACS e pós-graduada em Psicologia Analítica pela Psiquê - Centro de Estudos C. G. Jung, atua como psicóloga clínica com crianças e adolescentes. Além de coordenadora de cursos da Clínica Psiquê, presta trabalho voluntário na Fundação Lar Harmonia junto a crianças carentes. Apesar de ainda não ser mamãe, é apaixonada por crianças e, por isso, dedicou e dedica a sua formação profissional nesse fantástico mundo infantil.