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Após o nascimento do bebê, a primeira via relacional entre o ele e a mãe é a alimentação, pois ocupa lugar central na relação entre pais e filhos — desde os recém-nascidos aos adolescentes. Além de ser um fator de sobrevivência, o ato comer é um meio de troca, comunicação e sociabilidade.

Sabemos que o recém-nascido é totalmente dependente do cuidador que o alimenta e estabelece uma relação íntima e de afeto — no ato da amamentação, é possível notar um cenário rico em sensações (gosto, cheiro e tato). Obviamente que as mães também se deixam envolver, pois para elas alimentar a própria “cria” é um modo de continuar a dar-lhe vida e sentido. É por isso que se sentem mal quando recusam o peito, a mamadeira ou até mesmo a papinha feita com tanto carinho. Qual a mãe que não fica de cabelo em pé quando o filho não come quase nada ou que dá trabalho para comer? Parece que a cada dia é preciso reinventar uma refeição com um novo sabor ou repetir sempre aquilo de que mais gostam. Haja trabalho, angústia e cansaço para as mamães (e papais, também).

A relação da mãe x bebê x alimentação é de fundamental importância para fornecer sentimentos de segurança interior, bem como na formação da personalidade. Por quê? Os bebês absorvem por meio do corpo as tensões e as dificuldades das suas figuras de ligação afetiva e as memorizam em nível somático. Uma mãe constantemente agitada, angustiada ou com pressa transmitirá sensação de estresse ao bebê — ele percebe a inquietude através do tom da voz, maneira de carregar ou modo mecânico e sem envolvimento na amamentação, por exemplo. Tais percepções serão internalizadas e farão parte do conceito de “comida” ao longo da vida.

A linguagem dos bebês está diretamente ligada ao corpo e diz respeito às experiências que vivem no seu dia-a-dia. Cabe aos adultos compreender o significado dessa linguagem e sempre dar valor ao momento “hora de comer”. O consumo de alguns alimentos e a recusa de alguns é uma estratégia de afirmação do eu ou de se reconhecer em um determinado grupo — muitas vezes alguns pais deixam de dar determinadas comidas justamente por não gostarem ou por não fazerem parte da cultura familiar. Às vezes os pais insistem para que as crianças comam alimentos de que não gostam, não levando em consideração que os gostos na infância são diferentes do que se estabelece mais tarde. Ou então as estimulam a comer mais que o necessário, podendo gerar alguns problemas no futuro (anorexia, bulimia, obesidade, transtornos alimentares em geral) — se for muito estimulada, a criança poderá se tornar resistente aos sinais do estomago, isto é, come mesmo quando satisfeita.

É nessa relação primordial com o alimento que a criança vai estruturando sua identidade cultural, sua relação com o corpo, como também uma coesão social. A primeira fonte de informação “alimentícia” é a família, mas, assim que a criança é inserida na escola, ela começa a aprender com os colegas outras possibilidades. Fazer igual aos outros, comer e beber como eles significa integrar-se ao grupo e não ser excluído. O alimento favorece a união social e a relação da imagem do corpo individual.

Além das crianças precisarem ter uma alimentação saudável, a relação com a comida também se torna fundamental!

Sobre Lilian Britto

Graduada em Psicologia pela Universidade Salvador – UNIFACS e pós-graduada em Psicologia Analítica pela Psiquê - Centro de Estudos C. G. Jung, atua como psicóloga clínica com crianças e adolescentes. Além de coordenadora de cursos da Clínica Psiquê, presta trabalho voluntário na Fundação Lar Harmonia junto a crianças carentes. Apesar de ainda não ser mamãe, é apaixonada por crianças e, por isso, dedicou e dedica a sua formação profissional nesse fantástico mundo infantil.