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Respirem fundo e vamos dar continuidade à série iniciada no post anterior!

A criança pequena é naturalmente impulsiva e curiosa, gosta de explorar o ambiente em busca de novas aventuras, mas ainda não desenvolveu uma boa noção de perigo. Nos primeiros anos de vida é preciso tomar alguns cuidados para prevenir acidentes e estabelecer limites, usando ações consistentes (“não pode colocar o dedo na tomada porque faz dodói”) e distrair a criança com outra coisa. Assim, pouco a pouco, sem precisar de “palmadas”, ela aprende que não pode fazer tudo o que quer na hora em que bem entende.

Como a criança às vezes não consegue frear seus impulsos, daí o trabalho paciente dos pais de repetir infinitas vezes “aí não”, oferecendo alternativas que nem sempre terão sucesso. Vale ressaltar que os temperamentos das crianças variam muito, por exemplo: há crianças mais resistentes que têm ataques de raiva quando são impedidas de realizar seus desejos, e outras que são mais flexíveis para aceitar as alternativas oferecidas. Isso vai de acordo com a personalidade e natureza da criança. Crianças “mais difíceis” precisarão de mais monitoramento, paciência e persistência dos pais do que outras, no que diz respeito ao manejo e educação.

Algumas variam também na reação diante dos limites impostos. Algumas respondem aos pais e adoram desafiar as proibições; quando desenvolvem a fala são incansáveis e criativas em seus argumentos para tentar anular a proibição. Outras são mais discretas e até mesmo excessivamente submissas, abrindo mão de seus desejos, cedendo às imposições com medo de desagradar aos outros.

Independentemente de cada criança, uma das maiores queixas dos pais é a de terem criado seus filhos na base da lei do desejo e não da lei do consenso. O filho cresce achando-se no direito de sempre ocupar o primeiro lugar e pensando que os outros são seus súditos, que servem para satisfazer seus desejos. A melhor maneira de prevenir essa situação é dar, desde pequeno, a noção de que ele (filho) é importante, mas não é a única pessoa no mundo que tem o direito de ser atendida.

Os pais, cansados ou por vergonha das cenas de choro, gritos e demonstrações de infelicidade, cedem o que os filhos pedem mesmo sabendo que futuramente isto irá se repetir. Atenção e carinho não podem ser substituídos por presentes, e nem sempre o ato de dar o que a criança pede é expressão de amor.

Na educação as consequências são muito mais eficazes do que os castigos. Castigo é punição, frequentemente dado na hora da raiva, sob a forma de ameaças ou de modo exagerado. Passada a raiva, os pais esquecem ou “atenuam” a sentença com pena do filho que suplica e promete não fazer de novo. Dar castigo e não cumpri-lo é o caminho mais curto para a repetição das birras e comportamentos desafiantes, estimulando as crianças e os jovens a manipular cada vez mais os pais. Se dizer: “ficará um mês sem ver TV” — pais, tratem de sustentar este castigo ou pensem em algo mais “fácil” de vocês cumprirem.

Dar consequências é uma medida essencial na educação para a responsabilidade: primeiro os deveres, depois os prazeres (“quando terminar a tarefa da escola, pode ver televisão”); estragou, tem que consertar (“sei que você não derramou o suco de propósito, mas precisa limpar a mesa”); usou, tem que colocar no lugar (“pegue a calça que você jogou no chão e ponha-a no cesto de roupa suja”). A consequência tem uma ligação lógica e precisa ser anunciada com firmeza e persistência para que possa ser atendida.

A crise de birras tem importância por representar um teste severo para as atitudes dos pais. Estes reagem às denominadas “manhas” de acordo com vários fatores, como estado de humor do momento, situação social, presença de outras pessoas, horário, entre outros.

Em virtude de todos os cuidados que recebeu, a criança acostuma-se a ver os adultos como fonte de amor e carinho. Com a restrição, surge uma nova aparência do adulto, a de “O Punidor”: a criança que sempre encontrou no adulto a resposta de afeto face a todas as suas aquisições, encontra-se agora reprovador. Assim, surge o conflito: ou obedeço aos adultos e nego minhas forças instintivas ou cedo e perco o amor deles. Este impasse gera tensão, se manifestando sob a forma muscular, originando a birra.

A birra é um resposta muscular em massa em que há uma excitação motora global. A criança chora, grita, deita-se no chão, rola, bate com a cabeça, mão, pés; dá pontapés, socos, xinga, morde, bate nos adultos.

Geralmente é uma resposta a uma frustração, ocasionado muitas vezes pelo empecilho que o adulto opõe à realização dos desejos da criança, porém outras vezes é uma resposta à frustração ocasionada por outra criança, quando se defrontam no sentido de resolver suas rivalidades. Tem ainda outra finalidade: a tentativa, por parte da criança, de conseguir o que quer.

Classificação:

  • Crises de birra intensas: são as de forma violenta, nas quais há reação muscular com resposta em massa. Tem maior duração.
  • Crises de birras leves: são aquelas em que há pequena reação muscular: bater os pés ou as mãos.
  • Idade: A birra é muito frequente aos 2 anos de idade. Aos 3 e 4 anos a criança deve ter apenas uma crise por mês e aos 5 não terá mais.

A finalidade é sempre chamar a atenção afetiva de uma pessoa da família, de regra a mãe, e, em geral, provocada pela sensação de abandono. Quando a mãe proíbe alguma coisa, a criança sente-se abandonada e responde com uma excitação difusa, com resposta motora. Ou seja, a birra é uma resposta à frustração que a criança não consegue suportar.

Um outro fator que pode originar uma birra é o exigir demais de uma criança. Esta entra em tensão constante de forma que seu limiar para suportar frustrações estará sempre próximo ao ponto crítico.

A inconstância educacional é outra atitude dos pais que leva muitas vezes a criança a apresentar a birra — os pais agem de forma inconstante: elogiam uma ação e, posteriormente, pelo mesmo motivo, criticam ou castigam a criança.

 

Desencadeantes das crises de birras:

  • Ouvir um “não”;
  • Não cumprir seus desejos;
  • Receber uma ordem;
  • Castigos;
  • Ciúmes;
  • Inibição por parte de um adulto ou criança: a criança ser humilhada, criticada ou provocada. Há crianças quem não gostam de “brincadeiras” que agridem sua identidade.
  • Problemas orgânicos: alergias, resfriado, sono, fome, por exemplo.

 

Atitudes “erradas” dos pais, frente às birras:

  • Ceder;
  • Castigar.

 

Algumas dicas para lidar com as birras:

  • Diminuir o número de frustrações ou fazer com que a criança entenda que nem tudo pode ser na hora que ela quer e como ela quer.
  • Iniciada a crise, permitir que chegue até o fim, sem interferência alguma. Se estiver em um lugar público, levar a criança para um local onde não há pessoas ou para o carro, por exemplo, e deixar ela chorar e gritar até cessar. Nessas horas a mãe ou o pai devem permanecer calados e esperar a criança terminar a birra. Às vezes agachar e conversar com a criança de maneira calma e diretiva pode ajudar. Nada de promessas — “se você parar de chorar vou lhe dar um soverte”. Às vezes tentar distraí-la com outra coisa pode funcionar — “olha ali um auau”. Se tiver em uma festinha ou shopping, nem pense em retornar ao local — direto para casa —, pois ela entenderá que, por mais birra que faça, será recompensada de alguma maneira. É necessário mostrar as consequências: não fez o dever, não vai descer pra brincar ou ver televisão; não quer almoçar, também não vai comer chocolate e deverá esperar até a hora do lanche; fez birra, irá para casa e em casa nada de TV ou descer para brincar.
  • Terminada a crise, a mãe poderá acariciar a criança ou conversar com ela sobre o que aconteceu. Pode-se dizer: “você tem todo o direito de estar chateado, mas as pessoas não tem direito de ficar vendo você fazer isso ou ouvir você gritando ou chorando desse jeito. Nem tudo pode ser da maneira que você quer, isso faz parte. Nem tudo o que mamãe quer pode ser atendido naquela hora. Já pensou nisso?” Fazer com que a criança se coloque no lugar do outro é uma outra dica para “dispersar” um pouco o egocentrismo (a criança no centro de tudo).
  • Uso da profilaxia: por exemplo, retirar do alcance da criança objetos valiosos facilmente quebráveis que despertam a curiosidade como vasos, bibelôs, bichinhos de vidro, etc., antes de a criança chegar ao local.
  • Se houver divergências educacionais entre os pais ou demais familiares, deverão ser resolvidas entre si e nunca em presença da criança. Todos devem falar a mesma língua. Crianças que vivem no lar com vários adultos têm mais frequentemente crise de birra, em virtude das diversas tendências educacionais às quais estão sujeitas. Por exemplo, o pai ou a mãe proíbem a criança alguma coisa, esta faz birra, que comove a geração mais velha (vovôs e vovós), que intercede a seu favor, ou lhe dá um substitutivo, atingindo a assim o que a criança tanto queria — se satisfazer e manipular os adultos (“eu que mando”). Diante disso, a criança tem toda a razão de pensar assim: “se eu continuar dizendo que não quero comer, eles vão me ameaçar com castigos, mas vão fazer tudo o que eu quiser depois”.
  • É evidente que se ceder frente à crise faz com que a criança cesse (pare a birra), mas ela internalizará que a birra é a melhor maneira de conseguir o que quer.

O amor não envolve somente a atenção e o atendimento às necessidades da criança, mas também o preparo para a vida no mundo com os outros.

Ufa! Muita coisa, né gente?! Mas ficam as dicas!

Beijinhos e até a próxima!

Sobre Lilian Britto

Graduada em Psicologia pela Universidade Salvador – UNIFACS e pós-graduada em Psicologia Analítica pela Psiquê - Centro de Estudos C. G. Jung, atua como psicóloga clínica com crianças e adolescentes. Além de coordenadora de cursos da Clínica Psiquê, presta trabalho voluntário na Fundação Lar Harmonia junto a crianças carentes. Apesar de ainda não ser mamãe, é apaixonada por crianças e, por isso, dedicou e dedica a sua formação profissional nesse fantástico mundo infantil.